sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Interculturalidade

O conceito de Interculturalidade surgiu na França no início dos anos 70 em detrimento de um conceito que ganhava força nos Estados Unidos: o Multiculturalismo.
Para entender um pouco melhor essa relação entre o Multiculturalismo e o Interculturalismo, vamos voltar um pouco na história para tentar explicar em que contexto esses dois conceitos surgiram.
Durante o século XIX países como Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, entre outros, investiram no que chamamos de neocolonialismo da África, numa tentativa de ocupar o continente através da criação de colônias. Como justificativa para a colonização, os europeus defendiam a idéia de que eles tinham a missão de levar o desenvolvimento àquele continente, já que esses faziam parte da civilização, sendo, portanto, mais evoluídos, enquanto que os povos que habitavam a África eram vistos na Europa como bárbaros, selvagens.
A ideologia da época era que a missão dos países civilizados deveria guiar as outras populações pelo caminho do progresso, do desenvolvimento científico, da razão, do mundo moderno (De Carlo, 1998, p.19). Mas o fato é que, com o desenvolvimento do capitalismo, as potências européias necessitavam de matéria-prima para alimentar a economia, e o continente africano estava repleto de riquezas minerais e naturais.
Maddalena de Carlo, em seu livro “L’interculturel”, ressalta que o termo “civilização” se refere a “la différence entre les peuples plus « évolués » et les autres” e que o termo faz referência aos “pays de l’Europe occidentale qui, dans un contexte colonialiste, ont désigné ainsi leur culture comme supérieure aux autres.” Esse foi o pensamento que vigorou durante todo o processo de colonização, fazendo com que a cultura européia fosse vista não só como superior, mas também como aquela que deveria ser imitada. Esta ocupação prosseguiu até ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando as colônias foram conquistando gradativamente sua independência das metrópoles européias.
A Segunda Guerra Mundial foi um marco importante para o contexto das migrações africanas para o continente europeu. No caso da França, podemos considerar como o ponto de partida para o que posteriormente causaria muitas controvérsias em relação à presença de imigrantes em território nacional, e à própria nacionalidade francesa.
Durante a guerra, os soldados provenientes das colônias francesas na África, foram recrutados para lutar pela França. O discurso era que eles deveriam ajudar à pátria-mãe em um momento tão difícil como aquele, e que aqueles que lutassem pela metrópole poderiam requerer o título de cidadãos franceses ao término da guerra. Muitos morreram na tentativa de se tornarem cidadãos, já que a França os usava como “bucha de canhão” em missões que, muitas vezes, não alimentavam o desejo de sacrificar cidadãos franceses. Mesmo assim, alguns conseguiram recomeçar suas histórias na França.
Com a criação da Comunidade Econômica Européia (CEE), o limite, antes imposto pelas fronteiras dos Estados Nacionais, deixou de ser um empecilho para as migrações no próprio continente europeu. A mobilidade ficou muito maior, o que gerou uma séria preocupação no que concerne a questão da identidade de um povo. Com isso surgiu à necessidade da criação de leis para garantir a nacionalidade dos cidadãos de cada país membro da comunidade.
O número de imigrantes na França cresceu muito desde o pós-guerra, assim como, também, a variedade dos países de origem desses imigrantes. Temos hoje na França pessoas advindas da região do Maghreb, da China, de países do leste europeu, além dos países que fazem parte da União Européia.
A Constituição francesa de 1791 atribui a cidadania francesa a todos que são nascidos na França de um pai francês, aos que são nascidos na França de um pai estrangeiro, e aos descendentes de um francês ou francesa expatriados por motivos religiosos que desejarem se estabelecer na França e prestar o juramento cívico.
Recentemente, em 2006, o então presidente da França, Nicolas Sarcozy, que atuava com Ministro do Interior na época, elaborou um novo projeto de lei para imigração, o qual registrou diversas mudanças em relação à lei de 1791, todas elas tornando ainda mais difícil o processo de naturalização na França.
O que observamos nesse processo é que a França tornou-se um destino muito procurado para imigração, mas juntamente com o deslocamento dessas pessoas para o país, muitas mudanças seriam necessárias para acomodá-las de forma apropriada, garantindo as condições necessárias ao Estado Francês para estabelecer as ligações necessárias entre o governo e o cidadão.
Contudo, todo o processo aconteceu de maneira desordenada, ou melhor, não foi possível controlar de forma eficaz a entrada e saída desses imigrantes. Tanto que os únicos números que o governo tem acesso são relativos a média de pessoas que chegam ao país e uma estimativa de quantos imigrantes ilegais transitam pela França, e mesmos esses números são bastante imprecisos. O governo não tem idéia, por exemplo, de quantos imigrantes voltam para seu país de origem.
Com tudo isso, podemos perceber que, hoje em dia, na França, existe uma diversidade incrível de culturas dividindo o mesmo espaço, nesse contexto nos perguntamos: como podemos lidar com essas diferentes culturas?
Nesse ponto chegamos ao foco desse trabalho. Após anos de estudos, debates e tentativas, a França conhece o conceito de Interculturalidade, que M. Abdallah-Preitcelle define como « une construction susceptible de favoriser la compréhension des problèmes sociaux et éducatifs, en liaison avec la diversité culturelle », colaborando com a idéia defendida por Ana Lúcia Eduardo Farah Valente, doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), que diz que “o Intercultural permite a caracterização de uma dinâmica bilateral no interior da qual se engajam parceiros conscientes de sua interdependência”, contrapondo a idéia do Multicultural que “se limita a constatar o estado das entidades sociais onde coabitam os grupos de indivíduos de cultura diferentes.”
É nessa perspectiva que o governo francês tenta proporcionar um ensino mais inclusivo, no que concerne a questão do respeito à cultura do “outro” , acrescentando às atividades escolares, disciplinas relacionadas à “cultura dos migrantes”, como o ensino da língua materna desses migrantes. Como esclarece Micheline Rey (1983):

“... a pedagogia intercultural não se propõe a substituir as tarefas fundamentais do ensino na escola, mas a alargar as preocupações existentes, insistindo sobre a influência que exercem as culturas do país hospedeiro de origem dos migrantes, umas sobre as outras.”
(1983 apud VALENTE, Ana Lúcia Eduardo, 1998, p.15)

A título de conclusão desse trabalho, consideramos o uso do Intercultural no ensino, um salto positivo na tentativa de aproximação, e até mesmo inclusão das diversas culturas existentes na França, possibilitando um ambiente de troca entre as culturas, permitindo que o indivíduo tome para si o que achar interessante na cultura do “outro”, aprendendo a respeitar o que antes ele não conseguia compreender.

Nenhum comentário:

Postar um comentário